Professora que levou alunos ao cinema representa região Norte em premiação

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Não foi apenas uma simples ida ao cinema. O que o empenho da professora de língua portuguesa Lilia de Melo, 42 anos, proporcionou a cerca de 400 estudantes da Escola Estadual Brigadeiro Fontenelle, no bairro da Terra Firme, em Belém, foi a possibilidade de se verem, de certa forma, representados em tela cheia. Não à toa, a iniciativa intitulada ‘Adote uma criança para ir ao cinema’ viralizou nas redes sociais e, mais recentemente, concedeu à educadora a vitória nas etapas estadual e regional do prêmio Professores do Brasil 2018, organizado pelo Ministério da Educação (MEC). Agora, Lilia de Melo representará a Região Norte na fase nacional da premiação.

É na mesa da própria casa e rodeada por parte de seus alunos que Lilia explica como iniciou o projeto que levou ao merecido reconhecimento. A pedido dos filhos, a educadora foi ao cinema para assistir ‘Pantera Negra’, filme da Marvel. Foi ali, em um momento de descontração, que ela percebeu que a mensagem passada pelo longa-metragem poderia surtir um efeito positivo em outros jovens que fazem parte da sua vida. “Eu saí impactada do cinema e pensei: ‘os meus alunos precisam ver esse filme’”.

Fazendo uma conta rápida, Lilia percebeu que cada aluno precisaria gastar cerca de R$55 para assistir ao filme no cinema. Recurso que muitos não teriam condições de arcar. A partir daí a educadora iniciou uma busca, de porta em porta, nos cinemas. A esperança era a de conseguir alguma forma de cortesia através de projetos para que os estudantes pudessem assistir ao filme gratuitamente.

Diante das respostas negativas, a professora fez um desabafo em sua rede social, o que deu início a toda a transformação que estaria para acontecer. “Para a minha surpresa a publicação teve 300 compartilhamentos. Cada pessoa que comentava dava uma opinião, uma sugestão de como poderíamos fazer”, lembra, ao explicar como iniciou a campanha que pretendia arrecadar recursos para que os estudantes assistissem ao filme.

Com a repercussão, além das colaborações em dinheiro feitas por pessoas comuns, Lilia recebeu uma ligação de uma rede de cinemas oferecendo as salas para que os estudantes da Brigadeiro Fontenelle assistissem ao ‘Pantera Negra’. Com o dinheiro já arrecadado, a professora garantiu o transporte dos alunos – foram necessários quatro ônibus para transportar os 400 estudantes – e a pipoca e o refrigerante. “Quando eles voltaram da experiência, a UFPA (Universidade Federal do Pará) e o Museu Emílio Goeldi estavam procurando os alunos para ouvi-los”, lembra Lilia. “O que foi interessante é que, antes, os alunos já iam a esses lugares, mas sempre na condição de plateia. Agora os papéis se inverteram e eles é que queriam ouvir dos alunos como foi a experiência”.

As mudanças foram sentidas no próprio comportamento dos estudantes. Aliada a todo o trabalho desenvolvido em sala de aula, a compreensão da mensagem passada pelo filme e da forma como tudo foi se configurando para que se chegasse ao objetivo despertou nos adolescentes a percepção de que eles têm, sim, lugar de fala.

“Tivemos duas grandes chacinas que marcaram a Terra Firme, a de novembro de 2014 e a de abril de 2018. Tudo isso, aliado ao sucateamento enfrentado todos os dias, dá uma desanimada em quem mora na comunidade”, relata a educadora. “Então, tudo isso que aconteceu foi uma injeção de ânimo para todo mundo”.

Resultado do prêmio será anunciado em novembro

O resultado final do prêmio Professores do Brasil 2018 deve ser anunciado no dia 29 de novembro deste ano, durante cerimônia que será realizada no Rio de Janeiro.
Sem esconder a animação pela vitória regional – resultado anunciado no Dia do Professor, no último dia 15 – Lilia conta como deve funcionar a próxima fase da premiação. “Eu vou ao Rio de Janeiro e vou gravar um depoimento que integrará um vídeo que será disponibilizado pelo próprio MEC como instrumento pedagógico”, relata. “Todos os professores vencedores da fase regional vão passar cinco dias lá e todos seremos avaliados para que escolham o vencedor nacional”.

Lilia concorre na categoria ‘ensino médio’ com o artigo intitulado ‘Terra Firme: Juventude periférica_ Do extermínio ao Protagonismo!’. “Eu escrevi um artigo de 9 páginas apenas relatando o que eles (os estudantes) fazem. É por isso que eu digo que esse prêmio é deles e delas”, finaliza a professora.

O projeto

O projeto iniciado pela professora Lilia de Melo segue e já possui desdobramentos. A ideia, agora, é fazer com que os próprios alunos sejam os emissores da mensagem através da produção de documentários por eles mesmos. A proposta é exibir os documentários que os alunos produzirem nas ruas do bairro da Terra Firme, para que toda a comunidade possa assistir. Quem quiser contribuir com o projeto pode entrar em contato através da página ‘Cine Clube T.F.’ no Facebook.

Vozes da periferia 

Atentos ao relato da professora, os alunos que participaram da iniciativa fazem questão de reforçar a importância da atuação da professora em suas vidas. Aluna de Lilia desde o ensino fundamental, a estudante do 3º ano do ensino médio Victoria Monteiro Castelhano, 18 anos, lembra até hoje do primeiro dia de aula com a educadora. “Quando eu ainda estava no 9º ano ela disse para a gente: ‘Eu quero construir senso crítico em vocês’. Hoje eu vejo que ela conseguiu isso”.

Também no 3º ano do ensino médio, Raila de Jesus, 18 anos, leva como lição as experiências vivenciadas até então ao lado de Lilia, ensinamentos que vão muito além das regras da língua portuguesa. “Ela foi a única pessoa que acreditou no que a gente pode ou não fazer”, relata. “Não é porque é da periferia que você tem que ser o que os outros querem que você seja. Eu agradeço a ela pelo que sou e pelo que eu vou ser”.

Com apenas 18 anos, Raila será a coordenadora da primeira biblioteca comunitária da Terra Firme, espaço que deve ser inaugurado em dezembro deste ano. A missão foi conquistada após a estudante constatar, na prática, uma das principais lições repassadas por Lilia aos seus alunos: a de que um jovem estudante da periferia pode e tem voz. “Depois da exibição do filme ela comentou, durante uma conversa com um dos empresários que estavam apoiando o projeto, que montar uma biblioteca comunitária era o sonho dela. E agora esse sonho vai se concretizar”, diz orgulhosa a professora.

(Cintia Magno/Diário do Pará)

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